Reflexões Arqueológicas de um ser fotográfico  (2021)

Sou um imigrante digital. Tal qual meus contemporâneos, fui educado fotograficamente pelos rigores das películas, que exigiam que quase tudo fosse resolvido num único suporte. Hoje, tento me adaptar a instantaneidade e às fragmentações absolutas que o digital oferece, já que tudo pode ser produzido em pedaços a serem juntados pelas tecnologias. Usávamos as câmeras como espelhos que captavam reflexos emanados do mundo que nos circundava, apontando-as para fora de nós mesmos. E agora, em plena sociedade do espetáculo, os espelhos estão voltados para dentro das cenas e os fotógrafos já não se satisfazem em estar por trás dos aparelhos, querendo fazer parte das próprias imagens.

Quando a digitalização tomou conta do cenário, por conta de minha inércia, não me desfiz dos equipamentos que usava até então e, por um bom tempo, achei que tivesse acabado com muitos “micos pretos” em mãos. No entanto, a fotografia em películas resistiu e todos esses equipamentos voltaram a ter vida, pois podemos encontrar insumos para todos eles.  E, em plena pandemia, as práticas do estúdio do século XIX vêm sendo revividas e se intensificaram agora com os “home studios”, tanto no uso da luz natural, quanto nos acessórios improvisados. Parte dessa ressurreição eu procurei mostrar nesse ensaio, num trabalho de arqueologia pessoal, revirando armários e arquivos em busca de elementos que juntos conferissem sentido a alguns dos reflexos e reflexões que esses equipamentos me ajudaram a produzir ao longo de minha longa trajetória, fotografando-os com equipamentos icônicos da contemporaneidade e que aparecem por dentro e por fora das cenas, mostrando algumas tendências de ressignificações da atualidade, reciclando aparelhos para prestar reverência e respeito à arte que tem dado sentido à minha existência.